Itaú eleva custo de capital para 15,25%: o que muda
Itaú eleva custo de capital para 15,25%: o que muda No Fato Relevante de Projeções 2026 divulgado em 3 de novembro, o Itaú Unibanco manteve praticamente todas as faixas de guidance operacional (carteira de crédito, margem financeira, custo do crédito, receitas de serviços e despesas), revisou para baixo a alíquota efetiva de IR/CS (de 29,5%–32,5% para 28,0%–29,0%) e — o ponto que mais chamou atenção do mercado — informou que, a partir de novembro de 2026, **passou a considerar um custo de capital em torno de 15,25% ao ano na gestão de seus negócios.** Os impactos da mudança 1. Eleva a régua de criação de valor (o efeito mais direto) O Itaú gere o negócio pela ótica de criar valor acima do custo de capital. Com o Ke subindo para 15,25%, a barra que cada linha de negócio precisa superar para "criar valor" sobe junto. Operações que rendiam, digamos, 14% de ROE e antes eram marginalmente criadoras de valor passam a ser destruidoras de valor sob o novo Ke. Isso tende a tornar o banco ainda mais seletivo na alocação de capital — priorizando crédito garantido, segmentos de maior spread e clientes de maior rentabilidade, e desacelerando onde o retorno não cobre o novo custo. 2. Pressiona o valuation (mas o Itaú absorve melhor que os pares) No desconto de fluxo de caixa, um Ke mais alto reduz o valor presente dos lucros futuros — o efeito pesa mais sobre fluxos de longa duração. Para o setor, isso significa múltiplos sob pressão. A diferença é que o Itaú entrega ROE de 23,6% (3T26) contra um Ke de 15,25% — um spread de ~8,4 p.p. acima do custo de capital, que é a maior folga do setor. Bancos que entregam ROE próximo ou abaixo do novo Ke (como o Santander, com ROE de 11,9% no 3T26) passam a operar, na prática, abaixo do custo de capital — ou seja, destruindo valor econômico. A elevação do Ke, portanto, amplia a divergência entre os incumbentes: separa quem cobre o custo de capital com folga (Itaú) de quem não cobre (Santander). 3. Redefine o benchmark para toda a cobertura de bancos Quando o Itaú — referência de disciplina de capital do setor — fixa 15,25%, esse número vira o piso de custo de capital que o mercado passa a aplicar a todos os bancos brasileiros. Para a leitura do Bradesco (que vinha de 2T26 forte, +16,2% de lucro) e do Inter, o teste deixa de ser apenas "cresceu o lucro?" e passa a ser "o ROE cobre 15,25% com folga?". Bancos digitais e nomes em fase de rentabilização, cujo ROE ainda está em construção, são os mais expostos a essa régua mais alta. 4. Sinaliza postura conservadora e defensiva Adotar um Ke mais alto é também uma sinalização de prudência: o banco está dizendo ao mercado que vai exigir mais retorno de cada real alocado, o que tende a sustentar a qualidade do crédito e a disciplina de precificação num ambiente de juros altos e incerteza fiscal. É coerente com o NPL de 90 dias em queda para 2,0% e a Basileia robusta de 15,4% reportados no 3T26.
Por Lucas Uhlig (@lucasuhlig)