Lojas Renner: o que o 3T26 diz sobre juros e consumo
Lojas Renner: o que o 3T26 diz sobre juros e consumo A Lojas Renner (LREN3) divulgou o resultado do terceiro trimestre de 2026 e, junto com ele, tomou uma decisão que merece atenção: descontinuou a projeção de crescimento anual da receita líquida de varejo para 2026 e para o período de 2027 a 2030. Os números do trimestre mostram um quadro misto. A receita líquida de varejo foi de R$ 3,03 bilhões, queda de 1,6%, com vendas mesmas lojas recuando 2,5%. O lucro líquido somou R$ 246,4 milhões, 11,8% abaixo do mesmo período do ano anterior. Por outro lado, o EBITDA de varejo cresceu 3,2%, para R$ 530,3 milhões, acima dos R$ 504,1 milhões do consenso Bloomberg, com a margem bruta de varejo subindo 0,4 ponto percentual, a 55,5%. Já o EBITDA total ajustado, de R$ 570,9 milhões, ficou 3,9% abaixo do ano anterior, ainda que acima dos R$ 508,9 milhões esperados pelo consenso. Por que a retirada da projeção importa? Uma projeção de receita de médio prazo é, na prática, um compromisso de visibilidade. Para fazê-la, a empresa precisa estimar consumo, preços, concorrência e custo de crédito por vários anos. A Renner afirmou que a decisão decorre de um ambiente macroeconômico mais incerto e de mudanças regulatórias relevantes para o setor. As demais metas foram mantidas: margem EBITDA de varejo pré-IFRS 16 entre 18% e 20% até 2030, ROIC próximo de 20% e redução da relação entre despesas operacionais e receita. O mecanismo por trás disso passa pelos juros. Com a Selic mantida em 13,75% e o Copom apontando piora nas expectativas de inflação, o custo do crédito ao consumidor permanece elevado. Famílias endividadas destinam uma fatia maior da renda ao pagamento de juros e sobra menos para itens não essenciais, como vestuário. Isso pressiona o volume de vendas, mesmo em empresas com marcas fortes. O release cita ainda a concorrência internacional mais intensa, um fator que limita a capacidade de repassar preços. Nesse cenário, a margem vira o principal amortecedor. Eficiência operacional e câmbio favorável ajudaram o EBITDA de varejo a crescer enquanto a receita recuava, mas esse é um ganho de qualidade do resultado, não de escala. Sem crescimento de receita, a alavanca operacional deixa de trabalhar a favor, e o lucro tende a oscilar mais com custos e despesas financeiras. Vale distinguir dois movimentos. Retirar uma projeção de crescimento não é, por si só, uma avaliação do negócio; é um sinal de que o horizonte de previsibilidade encurtou. Já o acompanhamento dos próximos trimestres dirá se a pressão sobre o consumo é cíclica, ligada ao ciclo de juros, ou se há mudanças mais duradouras no setor. Para quem acompanha o varejo, os pontos a observar são vendas mesmas lojas, margem bruta, nível de endividamento das famílias e a trajetória da Selic.
Por Lucas Uhlig (@lucasuhlig)