O dilema do Banco Central
O dilema do Banco Central O Copom manteve a Selic em 13,75% e interrompeu o ciclo de cortes. A pausa chega num momento em que dois sinais pedem remédios opostos. De um lado, a atividade perde força. A produção industrial de setembro caiu 0,8% sobre agosto (o consenso esperava -0,2%) e 2,5% na comparação anual (esperado: -1,7%). Juro alto encarece crédito e investimento, e a indústria costuma ser a primeira a sentir. Como a política monetária age com defasagem, parte desse enfraquecimento reflete decisões passadas, o que reforça o argumento por juros menores. Do outro lado, as expectativas de inflação se afastam da meta. O Copom elevou suas projeções: para 2026, de 5,2% para 5,6%; para 2027, de 3,9% para 4,7%, ambas acima do teto. Quando as expectativas se desancoram, empresas e famílias passam a reajustar preços e salários com base na inflação que esperam, e não na desejada. Isso dá inércia à inflação e aumenta o custo de trazê-la de volta. Por isso a pausa faz sentido do ponto de vista de um banco central. Perder a âncora de expectativas é caro e demorado de reverter. Já uma pausa preserva a opção de agir nas duas direções, e o comunicado não indicou quando os cortes voltam nem descartou novas altas. Para o mercado, juro estável por mais tempo mantém alta a taxa de desconto dos fluxos de caixa futuros, o que pesa mais em setores sensíveis a crédito. Ao mesmo tempo, preserva o retorno da renda fixa, que compete com a bolsa por capital. E ai, o que o banco central vai fazer? Me parece que o nó só poderia ser desatado por um agente: o governo e a sua política fiscal
Por Lucas Uhlig (@lucasuhlig)