O que um "prêmio de risco" faz com o preço de ações e câmbio
O que um "prêmio de risco" faz com o preço de ações e câmbio Na segunda (5/10), o Ibovespa subiu 7,70%, a 206.911 pontos, a maior alta diária desde março de 2020, com volume recorde de R$ 79,3 bilhões (a média dos últimos 50 pregões era de R$ 19,8 bi). No mesmo pregão, o dólar futuro caiu cerca de 4,25% e os vértices da curva de juros recuaram até 125 pontos-base. A B3 chegou a ampliar os limites de oscilação dos contratos de DI. Três ativos diferentes se movendo juntos, na mesma direção, quase sempre apontam para um único fator por trás: a mudança na percepção de risco fiscal do país. Como o mecanismo funciona: 1) Os juros futuros embutem um prêmio de risco. A taxa de um DI longo é a Selic esperada mais uma compensação pelo risco de a dívida pública crescer além do previsto. Quando o mercado passa a enxergar maior chance de consolidação fiscal, esse prêmio encolhe e a curva cai, mesmo sem nenhuma decisão do Copom. A curva passou a precificar cerca de 80% de chance de corte de 25 pontos-base na reunião de novembro. 2) Juros menores elevam o valor presente das empresas. Uma ação vale os fluxos de caixa futuros da companhia, descontados a uma taxa. Taxa de desconto menor eleva o valor presente, e o efeito é maior em empresas alavancadas (menor despesa financeira) e de ciclo longo. Não por acaso, entre as maiores altas do dia estiveram B3 (+22,6%), Cosan (+23,8%) e Magazine Luiza (+24,2%). 3) Câmbio mais baixo redistribui ganhadores e perdedores. Dólar abaixo de R$ 5 reduz o custo de dívidas em moeda estrangeira e de insumos importados, mas comprime a receita em reais das exportadoras. Suzano e Embraer recuaram, e produtores rurais podem vender a safra a um câmbio inferior ao usado na compra dos insumos. O ponto de atenção: o movimento reflete expectativas, não fatos consumados. O segundo turno é em 25/10, a margem do primeiro foi estreita (47,03% a 45,16% dos votos válidos) e propostas fiscais concretas ainda não foram detalhadas. Um prêmio de risco que cai rápido também pode voltar se a incerteza aumentar. Hoje, o noticiário traz ainda a balança comercial brasileira e falas de dirigentes do Fed, que influenciam os juros globais.
Por Lucas Uhlig (@lucasuhlig)