A forte alta do Bitcoin nos últimos dias levou o Standard Chartered a revisar o tom de suas projeções para a criptomoeda. Depois de defender que o BTC poderia chegar a US$ 100 mil até o fim de 2026, Geoff Kendrick, chefe global de pesquisa em ativos digitais do banco, afirmou agora que esse alvo pode ser “baixo demais”.
A mudança ocorre após o Bitcoin saltar mais de 20% em poucos dias, impulsionado pela ampliação das recompras de títulos de longo prazo pelo Tesouro dos Estados Unidos. Nesta segunda-feira (24), o BTC era negociado acima de US$ 79 mil, com alta de 2% no dia.
Segundo Kendrick, o Bitcoin pode voltar a testar sua máxima histórica de aproximadamente US$ 126 mil antes do fim do ano, com a recuperação possivelmente ganhando velocidade depois de 6 de outubro, data em que o BTC atingiu seu recorde em 2025 antes de uma forte correção poucos dias depois.
A avaliação mais otimista vem após o Tesouro americano anunciar, em 19 de agosto, que vai ao menos dobrar o tamanho das recompras de títulos de longo prazo. Para Kendrick, esse é “exatamente o tipo de coisa que o Bitcoin ama”, porque a criptomoeda historicamente reage bem a intervenções de liquidez e se beneficia da narrativa de oferta limitada em um ambiente de preocupação com dívida pública e perda de poder de compra das moedas.
Na leitura do Standard Chartered, o rali recente foi puxado principalmente por um short squeeze, quando traders vendidos são forçados a recomprar o ativo, mas também recebeu ajuda das entradas em ETFs de Bitcoin à vista. O banco avalia que o baixo nível de contratos em aberto pode atrair mais investidores conforme o preço sobe, criando espaço para continuidade da alta.
Previsões mudaram após meses de queda
A nova leitura marca mais uma mudança importante nas projeções do Standard Chartered ao longo do ciclo. Em fevereiro, Kendrick reduziu o alvo do Bitcoin para o fim de 2026 de US$ 150 mil para US$ 100 mil, enquanto também cortou a projeção do Ethereum de US$ 7.500 para US$ 4.000.
Mesmo depois de semanas difíceis para o mercado, o banco manteve o alvo de US$ 100 mil. Em junho, Kendrick afirmou à Reuters que continuava vendo o Bitcoin nesse patamar até o fim do ano, apesar da pressão causada por saídas de ETFs, queda dos preços e dúvidas sobre a Strategy, empresa de Michael Saylor que acumula Bitcoin em seu balanço. Na época, ele avaliava que boa parte da venda já poderia ter passado e que havia menos apostas otimistas a serem desmontadas.
Em julho, o Standard Chartered voltou a defender a projeção de US$ 100 mil, tratando a pressão sobre a Strategy como um problema de comunicação, e não de solvência. Kendrick afirmou que a mudança da empresa de uma postura de “nunca vender Bitcoin” para uma estrutura mais complexa de gestão de caixa e instrumentos preferenciais havia gerado ruído no mercado, mas não alterava sua visão de médio prazo para o BTC.
Agora, o cenário mudou novamente. A disparada recente veio depois de meses em que o Bitcoin ficou pressionado e distante da máxima histórica. Mesmo após o rali, a criptomoeda ainda negocia bem abaixo do pico de cerca de US$ 126 mil registrado em outubro de 2025, o que ajuda a explicar por que o banco vê espaço para recuperação adicional.
O otimismo do Standard Chartered também se apoia no ambiente macro. Juros longos mais altos vinham tirando força de ativos de risco, inclusive cripto. Quando o Tesouro sinaliza recompras maiores de dívida para aliviar esse mercado, a leitura de parte dos investidores é que alguma forma de suporte de liquidez pode aparecer sempre que o custo da dívida americana apertar demais.
Esse foi justamente o ponto destacado em análises recentes sobre o Bitcoin: se o maior mercado de dívida do mundo precisa de apoio para funcionar com estabilidade, ativos escassos como BTC e ouro voltam a ganhar apelo. A diferença é que, no caso do Bitcoin, a alta também foi amplificada por liquidações de posições vendidas e pela volta de fluxos para ETFs, o que torna a sustentação do movimento dependente de demanda real nos próximos dias.
Apesar do tom mais positivo, a previsão do Standard Chartered ainda carrega riscos. O próprio rali recente foi rápido e teve forte componente técnico. Além disso, a retomada até a máxima histórica depende de continuidade nas entradas em ETFs, queda ou estabilização dos juros longos e avanço da agenda regulatória nos Estados Unidos, especialmente em torno do Clarity Act.
O próximo teste do Bitcoin será transformar o salto provocado por liquidez e liquidações em uma tendência sustentada. Se conseguir, a discussão pode rapidamente sair dos US$ 100 mil e voltar para o antigo recorde de US$ 126 mil.
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