Por: Gabriel Ponte
Brasília, 3/8/2026 - O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central deve reduzir a taxa Selic nesta quarta-feira em 25 pontos-base, a 14,00%, diante dos sinais de uma inflação corrente mais benigna, além da desaceleração da atividade econômica, possibilitando por ora a continuidade das rodadas de calibração dos juros.
Repetindo a decisão de junho, o colegiado também deverá preservar a opcionalidade a respeito dos próximos passos do ciclo de calibração, mantendo maiores graus de liberdade para a decisão de setembro. O Copom inicia reunião de juros de dois dias nesta terça-feira, e informa decisão na quarta, a partir das 18h30.
Opções negociadas na B3 nesta segunda-feira indicavam 95% de chances de corte de 25 pbs na reunião desta semana. Já as apostas por manutenção dos juros estavam em 4,9%. Para setembro, operadores precificavam 70% de chance de nova rodada de corte de 25 pbs, enquanto as apostas por manutenção estavam em 29,9%.
ATIVIDADE ECONÔMICA
Ainda que o cenário externo siga incerto, em meio aos desdobramentos do conflito no Golfo Pérsico, o Copom observou uma evolução marginalmente benigna dos dados de atividade econômica desde a última decisão, em junho. A atividade econômica mostrou sinais concretos de desaceleração - vide dados recentes.
O volume de serviços recuou 0,4% em maio na base mensal, pior que consenso, de queda de 0,1%. A produção industrial recuou 0,2%, abaixo do consenso, de alta de 0,3%. Já as vendas no varejo subiram 0,1%, abaixo do consenso, de alta de 0,5%.
Os dados confirmam a leitura de uma certa moderação da atividade econômica ao longo do segundo trimestre, após um dinamismo visto no primeiro trimestre.
Já no front de preços, o IPCA de junho observou desinflação significativa, avançando, 0,16% no período, abaixo do consenso, de alta de 0,31%. A leitura do IPCA-15 de julho, por sua vez, mostrou deflação em diversas métricas de preços, denotando surpresas baixistas benignas.
Para além disso, o IPCA de junho e o IPCA-15 de julho trouxeram surpresas baixistas, com melhora nos núcleos. Na visão do BTG, até setembro a inflação deve seguir mais benigna, com forte deflação projetada para alimentos no domicílio e combustíveis.
O mercado de trabalho, embora resiliente, mostrou alguma acomodação. A leitura de geração líquida de postos, medida pelo Caged, tem mostrado perda de ímpeto, embora não configure uma deterioração. A taxa de desemprego, por sua vez, se mantém em patamares historicamente baixos.
Permanecem riscos, porém, relacionados ao processo eleitoral, em meio à consolidação da liderança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas pesquisas de intenção de voto, bem como eventual aprovação da PEC que propõe o fim da escala “6x1”, o que pode pressionar serviços ligados ao mercado de trabalho.
“Por outro lado, o balanço de risco para a atividade apresenta assimetria baixista. O endividamento das famílias está em nível recorde. Em um ambiente de menor impulso fiscal e política monetária ainda restritiva, essa fragilidade pode intensificar a desaceleração do consumo em 2027, contrabalançando parcialmente os riscos altistas descritos acima”, complementou o BTG.
EXTERNO
A despeito da melhora dos dados correntes recentes, a incerteza externa segue presente, corroborando com a leitura de cautela que é exigida de economias emergentes, em meio aos riscos altistas derivados da guerra, do El Niño e, também, da condução da política monetária pelo Federal Reserve no segundo semestre.
Operadores seguem em compasso de espera a respeito dos próximos passos do conflito envolvendo Estados Unidos e Irã, que no pico de estresse recente chegou a levar os futuros do brent a patamar superior a US$100 por barril, para depois arrefecerem.
A chance de um El Niño mais intenso, sob possibilidade de afetar safras no próximo ano, é também um risco para as perspectivas de inflação adiante, o que deve reforçar o viés altista do balanço de riscos da autarquia, que deverá ser formalizado nesta quarta, de acordo com o Itaú.
Dúvidas crescentes sobre os próximos passos do Federal Reserve, sob comando do chair Kevin Warsh, também deixam os investidores cautelosos a respeito do posicionamento de economias emergentes acerca de uma eventual retomada de alta de juros pelo Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) neste segundo semestre, o que pode oferecer rodada de valorização do dólar sobre divisas.
Ainda assim, a despeito da situação, o real teve volatilidade relativamente contida na janela entre reuniões do Copom, registrando queda de 0,51% entre a decisão de junho até o início de agosto, de acordo com dados vistos pela Mover nesta segunda.
EXPECTATIVAS
O horizonte relevante da autoridade monetária, que passa a ser o primeiro trimestre de 2028 nesta reunião, deve colocar inflação em 3,2%, de acordo com as projeções do Itaú, e em linha com o estimado no Relatório de Política Monetária de junho. A XP também antevê manutenção da projeção em 3,2%.
COMUNICADO
Itaú, BTG e XP, três players de mercado consultados pela Mover, convergem na mensagem central de que o Copom deve cortar os juros, mas divergem sobre o ritmo daqui para a frente.
Em linhas gerais, os três entendem que o Copom deverá manter a comunicação dependente de dados, sem um forward guidance explícito, preservando a opcionalidade tanto para continuar a cortar, quanto para pausar o ciclo.
O BTG segue mantendo expectativa de dois cortes de 25 pontos-base cada nas próximas reuniões, levando a Selic a 13,75% até o fim de 2026, apoiado em uma função de reação que já vinha sendo sinalizada. O Itaú antevê corte de 25 pbs esta semana, e aposta em uma opcionalidade na descrição para os próximos passos.
“A ausência de forward guidance explícito equivale a manter as portas abertas para as próximas decisões. O comitê preserva a opcionalidade tanto para continuar cortando em ritmo de 25 pontos-base quanto para, se necessário, interromper o ciclo diante da deterioração do cenário”, escreveu Diogo Guillen, economista-chefe do Itaú.
Depois do mal-estar ocasionado pelo comunicado de junho, o Itaú também entende haver espaço para uma simplificação da comunicação.
Embora projete um corte de 25 pbs nesta semana, a XP considera uma pausa no ciclo de calibração adiante. Reconhece, porém, que se houver sinais de “ressaca” na atividade e surpresas baixistas adicionais com a inflação corrente, o Copom pode estender o ciclo de cortes de juros nas reuniões seguintes.
Dessa forma, o provável corte de juros nesta quarta marca mais um passo do ciclo de afrouxamento monetário, mas não encerra o debate sobre até onde ele vai.
O Copom segue em território de cautela calculada: deve reconhecer a melhora recente nos dados domésticos, mas evitará se comprometer com o que vem depois de setembro.
Entre um cenário externo turbulento e riscos internos que não desapareceram, o Banco Central deve escolher manter as cartas na manga — e caberá aos próximos indicadores, não ao comunicado desta semana, dizer até onde vai o ciclo de cortes.
(GP | Edição: Luca Boni | Comentários: [email protected])










