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💡 ESPECIAL: Fed deverá manter juro inalterado na estreia de Warsh como chair, que carrega a ambição de reformular a instituição

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Por: Gabriel Ponte


Brasília, 16/6/2026 - O Federal Reserve deverá manter a taxa-alvo Fed Funds inalterada na decisão desta quarta-feira no intervalo entre 3,50% e 3,75%, na estreia de Kevin Warsh como chair do banco central, no pontapé inicial de uma nova era na autoridade monetária, cujo líder chega com ambição clara de reformular comunicação, balanço patrimonial e arcabouço da política.


O Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) iniciou hoje sua reunião de dois dias, e divulgará a decisão na quarta, às 15h00, acompanhada do relatório trimestral de projeções “Dot-Plot”, contendo estimativas do estafe do banco central para diferentes variáveis macroeconômicas. Warsh falará à imprensa a partir das 15h30.


Há expectativa, entre agentes, a respeito do comunicado da decisão, que pode eventualmente remover viés de afrouxamento monetário - motivo de dissidência entre participantes na decisão de abril.


Em trecho presente desde o fim de 2025, o Fed fala em “ao considerar a extensão e o momento de ajustes adicionais”, construção esta que é vista por agentes como uma sinalização de que o próximo movimento provável seria de corte de juros, embora a conjuntura atual não o comporte mais.


A despeito do firme recuo dos preços do petróleo entre domingo e terça-feira, na esteira da expectativa de reabertura do Estreito de Ormuz e assinatura formal de Memorando de Entendimento entre Estados Unidos e Irã, a inflação segue em patamares desconfortavelmente elevados.


Em maio, a inflação de preços ao consumidor acelerou ritmo de alta a 4,2% na base anual – no maior patamar em três anos, em meio ao choque de oferta produzido pela guerra. Os Preços ao Produtor, por sua vez, aceleraram ritmo de alta a 6,5% na base anual – maior patamar desde novembro de 2022.


Dado o quadro adverso, o mercado precifica eventual risco de alta dos juros ao fim do ano, e não mais queda – em direção oposta ao desejado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que emplacou pressões quase que diárias sobre Jerome Powell, ex-chair do Fed, desde que retornou à Casa Branca em 2025.


O panorama é, no mínimo, desafiador para Warsh, que assumiu o cargo de presidente do Fed há cerca de três semanas. Ele assumiu o posto como um forte defensor de que a Inteligência Artificial desencadeará uma força desinflacionária significativa via aumento de produtividade.


No entanto, agentes de mercado atentam para os riscos de pressão inflacionária, no curto e médio prazo, em razão dos massivos investimentos na infraestrutura relacionada à IA, que vêm oferecendo suporte à resiliência da economia americana.


“Não há realmente nenhum motivo para esperar que ele simplesmente diga: ‘estamos reduzindo as taxas de juros porque o presidente quer taxas de juros mais baixas’. Warsh sabe que não é assim que as coisas funcionam”, afirmou Norbert Michel, do Instituto Cato, à Bloomberg.


Ainda assim, o Bank of America projeta que Warsh adote uma postura mais “dovish” na coletiva, argumentando que os choques de oferta são eventos isolados; que o Fed deve ter uma visão prospectiva sobre a desinflação induzida pela Inteligência Artificial; e que a média aparada da inflação do PCE não parece problemática.


Warsh já se mostrou favorável à média aparada, por considerá-la uma medida de mensuração mais robusta que a leitura tradicional do núcleo do PCE - métrica favorita do Fed. Pela média aparada, o formulador da política monetária remove outliers extremos, preços que subiram ou caíram muito em um período específico, não se limitando somente a alimentos e energia.


“As medidas que prefiro são as chamadas ‘médias aparadas’. Nós tiramos todos os riscos de cauda, todos os itens pontuais, e nos perguntamos se a mudança generalizada de preços está gerando efeitos de segunda ordem na economia”, afirmou Warsh durante sabatina em abril.


O BofA antevê que a mediana de projeções do ‘Dot-Plot’ deste trimestre mostre inflação mais elevada, taxa de desemprego mais baixa e nenhum corte de juros. É provável, porém, que alguns membros do FOMC projetem aumentos nos juros.


REFORMULAÇÃO DO FED


Dado que a manutenção dos juros é amplamente esperada pelos agentes de mercado nesta quarta, o grande foco da decisão estará concentrado sobre Warsh, que tem posição histórica contrária à realização de coletivas de imprensa pelo banco central, assim como oposição à divulgação de projeções trimestrais dos membros do FOMC.


Em sabatina perante o Comitê Bancário do Senado, em abril, Warsh evitou se comprometer com a continuidade das coletivas regulares e criticou o excesso de comunicação do Fed. Em 2025, já havia afirmado a investidores que o Fed deveria “pensar mais e falar menos”.


Ainda assim, é uma contradição: Warsh terá de subir ao púlpito, às 15h30, para explicar projeções do estafe do Fed que ele minimiza, e terá de responder a cerca de 50 minutos de questionamentos que ele, por si próprio, preferia não realizar. O Bank of America antevê que Warsh poderá não apresentar suas projeções no “Dot-Plot” deste trimestre.


“Na visão de Warsh, o banco central se isolou em sua própria comunicação. Ele produz previsões que os mercados acompanham de perto e que limitam o trabalho do comitê. Os dirigentes fazem discursos ou concedem entrevistas sobre todos os lados de todas as questões. Warsh quer que o Fed fale menos e deixe os mercados fazerem mais do seu trabalho”, afirmou Nick Timiraos, especialista do Fed do Wall Street Journal.


A linha de raciocínio de Warsh é que as divulgações do estafe do Fed têm dado errado, constituindo-se em compromissos que se tornam mais difíceis de se reverter posteriormente. “Essas previsões têm sido péssimas. Meus palpites também não seriam perfeitos, então eu não os daria”, teria afirmado em conferência da State Street, em 2025, de acordo com declarações analisadas pelo WSJ.


Warsh também deseja atuar em outras frentes no banco central. Forte crítico da expansão do balanço patrimonial do Fed, que chegou a cerca de US$9 trilhões em 2022, pela Covid-19, Warsh defende que o banco central utilize mais a ferramenta de juros – que beneficia toda a economia – do que a compra de ativos financeiros, que favorece apenas Wall Street, ante Main Street, e contribuiu para a inflação no pós-pandemia.


Warsh renunciou ao posto ocupado de diretor do Fed em 2011 após cinco anos no cargo, em meio a desentendimentos e divergências em relação ao programa de compra de títulos liderado pelo ex-chair Ben Bernanke durante a crise financeira de 2008. De acordo com Timiraos, após sua renúncia, Warsh passou a última década argumentando que o banco central levou essa inovação “longe demais”.


“Reduzir a participação em títulos da dívida pública pode levar anos, e a área de comunicações é onde ele (Warsh) pode agir primeiro. Estar com as taxas de juros controladas, sem precisar lutar nesse sentido, permite que ele concentre sua energia nessa área”, ponderou Timiraos.


Warsh inicia a partir de amanhã sua travessia. Em meio a uma inflação teimosamente alta, um balanço patrimonial ainda inchado e um cenário global marcado por choques de oferta e promessas tecnológicas, o novo chair do Fed terá pela frente o desafio mais delicado de sua carreira: reconquistar a credibilidade de uma instituição que, para ele, falou demais e agiu além da conta.


Wall Street e os mercados globais observarão com atenção. A nova era começa agora.


(GP | Edição: Luca Boni | Comentários: [email protected])