$MELI34 Fazendo o que precisa ser feito — mesmo ao custo de margens de curto prazo.
Não é segredo que o MELI está passando por uma fase única em sua história, acelerando investimentos para defender (e expandir) sua liderança no e-commerce brasileiro. A estratégia está claramente funcionando. O GMV do Brasil — um dos principais indicadores de sucesso estratégico — continuou acelerando, crescendo 35% a/a no 4T, apesar de um cenário macro significativamente mais desafiador (e ao contrário da desaceleração sugerida por alguns indicadores de alta frequência). Como resultado, o GMV do Brasil do MELI cresceu 32% a/a em BRL em 2025, versus um crescimento estimado do mercado de ~20%, um ganho claro de participação sobre uma base já forte de 2024. O lado negativo — como esperado — é que esse crescimento vem acompanhado de maior pressão de margem no curto prazo devido aos níveis elevados de investimento. Como visto várias vezes em sua história, o MELI está mais uma vez sacrificando a lucratividade de curto prazo para reforçar suas vantagens competitivas. Essa é a decisão correta. Acreditamos que os aumentos de take-rate implementados no início de 2026 (principalmente pela Shopee) já sinalizam que a fase mais intensa do ciclo de investimentos ficou para trás. Apesar do miss de 9% no EBIT headline (US$790 milhões), a qualidade dos números (crescimento mais forte de GMV no Brasil e México, crédito melhorando marginalmente, Argentina levemente melhor) foi destaque. Se as ações caírem mais devido ao miss de EBIT do 4T, vemos como uma boa oportunidade de compra.
Gestão quantificou o impacto de curto prazo nas margens e reiterou convicção. O MELI estimou que o impacto combinado dos principais investimentos estratégicos (redução do limite para frete grátis no Brasil, comércio cross-border, 1P e cartão de crédito) foi equivalente a ~5-6 p.p. da margem operacional no 4T25. A gestão apresentou essa quantificação como uma tentativa de ajudar investidores a calibrar o ciclo de investimentos: o 1P ainda está ganhando escala, o fulfillment internacional está melhorando mas continuará expandindo (e portanto seguirá sendo um vento contrário à lucratividade no curto prazo), enquanto cartões de crédito estão evoluindo positivamente em rentabilidade (especialmente no Brasil). Essa pressão de ~5-6 p.p. reflete o impacto de todos os investimentos chegando ao breakeven. Mas esse não é o objetivo do MELI, já que a empresa espera contribuição positiva de todos esses negócios, o que significa impacto positivo nas margens acima de 5-6 p.p.
Aumento de 4 p.p. na cobertura da carteira explica quase todo o miss de provisões. Sem sinal amarelo aqui. Um ponto que pode ter contribuído para a reação negativa no after-market foi a provisão para perdas com crédito acima do esperado. Uma análise mais profunda mostra que isso foi impulsionado principalmente por um aumento de 4 p.p. t/t na cobertura de provisões (vs. NPLs >90 dias), o que explica cerca de US$84 milhões dos US$101 milhões de miss, além de crescimento da carteira mais rápido que o esperado (+3 p.p. vs IBBAe). Além disso, esse aumento de provisões foi mais do que compensado por maior yield de crédito e menor custo de funding, levando a um beat em NIMAL. Assim, qualquer fraqueza no preço das ações motivada principalmente por esse número de provisões pode representar oportunidade, em nossa visão. O MELI também destacou que métricas de risco de cartão melhoraram materialmente ao longo do tempo, especialmente no Brasil, onde coortes com mais de 2 anos já são lucrativas. Em outras frentes, o MELI entregou TPV de US$83,7 bilhões (+42% a/a, +53% FXN). A carteira de crédito atingiu US$12,5 bilhões (+90% a/a), com quase 3 milhões de cartões emitidos no 4T25 (principalmente Argentina e México, enquanto o 3T foi liderado pelo Brasil), aproveitando o tráfego da alta temporada.
Brasil continua sendo um motor-chave de crescimento, com KPIs muito fortes (e melhorando). O Brasil entregou crescimento de GMV FX-neutral de 35% a/a (+3 p.p. vs IBBAe, e +46% em USD), junto com +45% a/a em itens vendidos e +26% a/a em compradores únicos, dando continuidade à aceleração que a gestão atribui ao menor limite de frete grátis e a investimentos mais amplos na experiência do usuário. A gestão reiterou no Q&A que o objetivo principal é capturar a oportunidade estrutural do Brasil, mesmo que isso implique pressão de margem no curto prazo (novamente, a decisão correta). Como resultado, a margem de contribuição caiu para 9,0% (excluindo um crédito fiscal pontual de US$99 milhões), −8,3 p.p. a/a, refletindo investimentos mais pesados. O MELI destacou que a rede logística absorveu volume significativamente maior mantendo níveis de serviço, e que o custo unitário de frete caiu bons 11% a/a em BRL.
México também surpreendeu positivamente, apoiado por produtividade de fulfillment e logística. O GMV FX-neutral do México cresceu 35% a/a (+4 p.p. vs IBBAe, e +49% em USD), com itens vendidos subindo 45% a/a, e o MELI destacou que a penetração de fulfillment atingiu recorde próximo de 80% (um facilitador-chave de melhores níveis de serviço). A narrativa operacional permaneceu construtiva: o MELI continua expandindo rapidamente a cobertura de frete rápido/grátis no México para um nível comparável ao do Brasil, e o desempenho do 4T foi descrito como o “melhor trimestre do ano”, superando o mercado mais amplo.
Argentina: resiliente em volumes, mas macro/FX ainda obscurecem resultados. Em base FX-neutral, o GMV da Argentina aumentou 42% a/a (−1% em USD), e a gestão observou que a demanda estabilizou após a volatilidade do 3T. A margem de contribuição caiu 9,7 p.p. a/a para 37,2%, ainda assim a mais alta entre as geografias divulgadas pelo MELI. A expansão do fulfillment, maiores provisões de crédito ligadas ao crescimento de cartões e custos de funding ainda elevados foram as principais fontes de pressão. Também lembramos que o custo de funding temporariamente mais alto voltou a pressionar margens a/a — algo que esperamos desaparecer completamente à medida que as taxas continuem normalizando no país.
Receitas de ads foram outro destaque do trimestre (+70% a/a, chegando a 2,6% do GMV, +50 bps a/a). O take-rate de 3P caiu ~40 bps a/a principalmente devido à menor receita de frete, após a redução do limite de frete grátis. Compensando parte dessa pressão, publicidade novamente se destacou, com penetração aumentando 50 bps a/a para 2,6% do GMV e receita de ads subindo 67% a/a FX-neutral (+70% em USD), impulsionada por melhorias de experiência do usuário e ferramentas (ex.: orquestrador de orçamento, automação de campanhas e engajamento de sellers com IA).