O discurso de Kevin Warsh em Jackson Hole nesta sexta-feira (28) deve ser acompanhado de perto pelo mercado de criptomoedas e por investidores em ouro. A fala será a primeira grande apresentação pública de Warsh desde que assumiu o comando do Federal Reserve, em maio, e chega em um momento em que o Bitcoin voltou a se aproximar dos US$ 80 mil.
A atenção não está apenas no rumo dos juros. O ponto central para o mercado é entender se o Fed pode, de alguma forma, apoiar a estratégia do Tesouro dos Estados Unidos de ampliar recompras de títulos de longo prazo para tentar conter os rendimentos dos Treasuries.
No dia 19 de agosto, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, anunciou que o governo pelo menos dobraria as recompras de notas de longo prazo, elevando cada operação de US$ 2 bilhões para pelo menos US$ 4 bilhões entre 9 de setembro e 4 de novembro. A medida foi anunciada em um momento em que os juros dos títulos de 30 anos estavam próximos do maior nível desde 2007, pressionando o custo de financiamento da economia e a avaliação de ativos de risco.
A reação foi imediata. Bitcoin e ouro dispararam, com o BTC saindo de cerca de US$ 64 mil para perto de US$ 80 mil em uma semana. Para parte do mercado, a decisão do Tesouro foi interpretada como uma tentativa oficial de limitar os juros longos — algo que, se avançar, poderia abrir caminho para uma forma de controle da curva de juros.
Esse é o ponto que torna o discurso de Warsh tão relevante. O programa do Tesouro não é uma nova rodada de afrouxamento quantitativo, já que não injeta liquidez nova diretamente no mercado. Além disso, o volume anunciado ainda é pequeno diante de uma dívida federal de cerca de US$ 40 trilhões. Por isso, a dúvida é se a queda dos juros longos seria sustentável sem uma participação mais direta do Fed.
Bitcoin e ouro reagem à expectativa de mais liquidez
Ativos como Bitcoin e ouro tendem a se beneficiar quando o mercado enxerga risco de repressão financeira, perda de valor da moeda ou aumento de liquidez em dólar. É por isso que os dois ativos reagiram tão bem ao anúncio do Tesouro.
Jurrien Timmer, diretor de macro global da Fidelity, resumiu essa leitura ao afirmar que o mercado percebe uma “ladeira escorregadia” em direção à dominância fiscal e a uma possível perda de independência do Fed. Segundo ele, para o Tesouro conseguir manter os juros sob controle, talvez seja necessário ampliar de forma significativa as recompras, o que poderia exigir algum grau de cumplicidade do Fed.
Na prática, o discurso de Warsh pode testar exatamente essa hipótese. Se ele tratar as recompras como uma operação normal de liquidez, reforçar a independência da política monetária e afastar a possibilidade de coordenação com o Tesouro, os juros dos Treasuries e o dólar podem subir, pressionando Bitcoin e ouro.
Por outro lado, se Warsh deixar espaço para uma interpretação de que o Fed poderia aceitar ou apoiar a estratégia do Tesouro, o mercado pode ler isso como sinal de uma intervenção mais ampla no futuro. Nesse cenário, a tese de mais liquidez e enfraquecimento do dólar ganharia força, favorecendo novamente ativos escassos.
A fala também pode trazer pistas sobre a trajetória dos juros, a visão do Fed para a inflação e eventuais mudanças operacionais na condução da política monetária. Ainda assim, analistas não têm certeza de que Warsh vá entregar algo concreto.
O histórico recente sugere cautela. Warsh tem preferido intervir pouco verbalmente e oferecer pouca orientação futura ao mercado. Analistas do BNY afirmaram que, apesar da expectativa por alguma mensagem clara, ele deve falar de forma mais ampla sobre sua agenda de reformas, incluindo estrutura de inflação, dados, comunicação, política de balanço, produtividade e emprego.
Para o Bitcoin, a mensagem importa porque o rali recente passou a depender não apenas da demanda por ETFs ou do posicionamento em derivativos, mas também da leitura macroeconômica de que o governo americano pode tentar aliviar os juros longos. Se essa leitura for confirmada, o BTC pode ganhar novo impulso. Se for frustrada, parte da alta recente pode ser devolvida.
O ouro está na mesma posição. Ambos os ativos funcionam, em momentos como este, como apostas contra a perda de valor da moeda e contra o excesso de intervenção na curva de juros. O discurso de Warsh, portanto, não precisa indicar exatamente quando o Fed cortará juros para mexer com os preços. Basta responder se o banco central ficará ao lado do Tesouro nessa tentativa de administrar os juros longos — ou se fará questão de se manter afastado.
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