Sérgio Cachoeira CNPI | Consultor CVM
@osergiocachoeira · 06 de março de 2026 às 12:19
$EUAD: A Europa não tem escolha — e esse ETF pode ser o grande vencedor do maior ciclo de rearme desde a Guerra Fria A última vez que a Europa investiu em defesa com essa urgência, o mundo estava dividido por um muro em Berlim. Dez anos consecutivos de aumento nos gastos militares europeus, e a curva está acelerando. Em 2023, os gastos representavam 1,6% do PIB. Em 2024, saltaram para 1,9%. Em 2025, devem ultrapassar os 2%. Isso não é projeção otimista. É compromisso de chefes de Estado que estão com o mapa de ameaças em cima da mesa. E o contexto não deixa margem para dúvida. A Rússia está há quatro anos atacando a Ucrânia e segue pressionando o Leste Europeu e os nórdicos. A Groenlândia virou palco de tensão com os próprios aliados americanos. O conflito no Irã gerou ataques ao Chipre e à Turquia — membro da OTAN. A relação com a administração Trump estremeceu de vez. E diferente dos Estados Unidos, que tem um oceano de cada lado, a Europa não tem proteção geográfica. Os conflitos estão na vizinhança. É aí que entra o EUAD — o Select STOXX Europe Aerospace & Defense ETF. São $1,47 bilhão em ativos sob gestão, expense ratio de 0,50%, e apenas 14 holdings, com as três maiores representando 53,1% do total. É concentrado. Mais risco, sim, mas mais sensibilidade ao upside quando a tese se materializa. E por que não ficar no $XAR, o ETF de defesa americano? Porque as companhias americanas já possuem relações maduras com o Pentágono. A assimetria é menor. Já na Europa, o que vemos é o início de um ciclo. Alemanha e Polônia aumentam gastos militares em proporções não vistas desde a Segunda Guerra. O presidente da França cantou o hino nacional em frente a um submarino nuclear. Não é retórica — é sinalização de que o dinheiro vai fluir para esse setor. E a Alemanha, motor econômico do bloco, ainda tem bastante espaço fiscal para aumentar sua relação dívida/PIB perante seus pares, com juros europeus mais baixos que outras economias desenvolvidas. Agora, o valuation. O $EUAD negocia a 30x lucros. O $XAR, seu par americano, a 46x. E o dado mais revelador: o $EUAD em seu múltiplo histórico mais alto nunca atingiu o múltiplo mínimo do $XAR. Se a tese de rearme se concretizar, o $EUAD poderia caminhar para 36x lucros — o piso do $XAR nos últimos 12 meses. Isso representa um upside de aproximadamente 20%. Não é promessa. É matemática de múltiplos com catalisador macro real. E esse setor pode ser o principal candidato a reduzir o prêmio histórico das ações americanas sobre as europeias. Mas existem riscos reais. O primeiro é estrutural: a Europa é um bloco com decisões descentralizadas. Tudo demora mais e líderes nem sempre cumprem promessas. O segundo é operacional — anos de dependência dos aliados americanos criaram fragilidades nas cadeias de suprimentos. O caso da dependência de titânio da russa VSMPO-Avisma durante a guerra na Ucrânia é emblemático. Além disso, a alta dependência de exportações das companhias europeias significa que qualquer sanção ou restrição comercial impacta diretamente as receitas. A conclusão é racional, não emocional. O $EUAD oferece uma assimetria interessante para quem entende o ciclo macro e aceita o risco europeu. Valuation descontado frente ao par americano, catalisador geopolítico concreto e fluxo de capital que está apenas começando. Não é aposta cega — é tese com fundamento, riscos mapeados e um cenário que, pela primeira vez em décadas, favorece as companhias europeias de defesa.